O que mudaria se a interação com o mundo deixasse, de uma vez por todas, de seguir o panorama da distância ocular ou da produção verbal, na base do programa positivista-materialista-colonial, e encontrasse a sua razão através da permeabilidade plena?


Tarsila do Amaral (1928) Abaporu.
Óleo sobre tela. 85x73 cm.
Cortesia Malba.

Em 1928, Tarsila do Amaral pintou ‘Abaporu’, uma figura cujos membros transbordantes e cabeça encolhida invertem o destaque tipicamente atribuído à visão e à linguagem como feitores de significação. O gigantismo da pele e dos pés de Abaporu vira esse quadro de pernas para o ar. São meios para uma relação com o entorno em que não há um fora. Vias de contacto direto com o mundo, com o chão, com os aromas invisíveis do sentido. São leituras geradas em contacto e em ressonância com o entorno, ocorrências por dentro, por propriocepção e interocepção, sem a pressa de uma solução premeditada.
Pelas mãos de Oswald de Andrade, Abaporu viria a tornar-se emblema para uma estética ‘verdadeiramente’ brasileira. Uma força antropofágica, capaz de devorar as suas próprias linhagens e heranças culturais (modernas e europeias) para produzir um gosto cultural totalmente novo, em que a diluição não representa descontrolo, mas a verdadeira força do sentido. O raciocínio de uma lógica de soluções não consegue, não deseja, e impede que se saiba assim, tão… descontroladamente. E talvez por isso Abaporu desperte em mim impressões de uma ligação animista e não-dualista com o mundo; ecos da minha vivência autista, a delícia de sentir excessivamente e a vulnerabilidade do descontrolo, de ser tão imenso e tão nada ao mesmo tempo.

Baixar a folha de sala Sem Pé Nem Cabeça, com os textos "Abaporu or not Abaporu that is the question" de Vera Carmo e "Deixar assente o que o pé sente" de André Alves. Design de Paulo Mariz.