O Papel da Fábrica
Trabalho Capital no Centro de Arte Oliva, Portugal
Abril 2019
comissariada por Paulo Mendes

Narração: Carolina Valente Cardoso
Sonoplastia: Moritz Degen
Desenvolvimento do conceito em colaboração com Juan Luis Toboso.
[English version bellow]

O papel da fábrica” consistiu numa performance de dois textos escritos em torno das relações com o trabalho. O primeiro texto, "Poder dizer que estamos com Trabalho é tudo o que pedimos" é narrado na forma epistolar entre o artista e a ideia de Trabalho, e foi inspirado pela obra “To be with art is all we ask…” de Gilbert & George (1971). Começando com a questão “nós tentamos conhecer-te Trabalho”, o texto procura documentar a identificação dos sujeitos com economias de desempenho e acumulação capital. O segundo texto, "O papel da fábrica", parte da memória pessoal da fábrica de reciclagem de papel que fez parte da infância do artista e da reflexão que a descoberta de estalactites numa fábrica de calçado (agora desativada) trouxe ao artista.
Alves referencia a fábrica como uma imagem em que nada permanece fixo. Uma imagem cujo cenário, modos de produção e corpos estão em permanente mutação, como uma imagem-miragem.

Poder dizer que estamos com Trabalho é tudo o que pedimos.
baseado na obra “To be with art is all we ask” (1970) de Gilbert & George e
“To be seduced by architecture is all we ask...” do Atelier Pavlina Lucas AS (2012).

Nós tentamos conhecer-te trabalho. Elogiar-te pelo que tu – Trabalho - fazes por nós. A tua magia é capaz de transformar o nosso suor em resplendor aos olhos alheios. Que bem nos faz esse brilho; que felizes nos faz fazer, fazer, fazer, fazer, fazer ...
Tu não te recusas a ninguém - que modéstia a tua - e por isso mesmo te encontramos onde quer que haja vida.
Tu tornas qualquer espaço num palco onde os nossos corpos exibem o quão bem ensaiadas estão as tuas doces velocidades e o nosso foco. Sem ti, os nossos corpos afrouxam e a atenção desgoverna-se. A tua velocidade permanece na nossa carne, faz da memória dos corpos arquivos vivos da monumental história do fazer. Que consolo ser tocado por ti Trabalho.
Quando não sabemos de ti Trabalho, as nossas cabeças viram de pernas para o ar e os nossos corações agitam-se em ânsia. Não queremos ser deixados. Estar sem ti é estar fora do mundo. E se te ausentas, ficamos dormentes de dia e despertos de noite, imaginando o teu regresso, sonhando voltar a ter-te, praticar-te, esmiuçando mil e uma formas de te voltar a alcançar. Quando te temos, o encantamento é completo. Nada nos falta.
Que és tu trabalho? Tu tens a capacidade única de nos tornares completos. De repente, passamos a existir – estamos vivos. Corremos ao teu encontro Trabalho. Precisamos de tanta ajuda para viver estes tempos atuais e tu vens com o teu consolo espiritual e capital, como uma prece que realmente se cumpre. Tu dás sentido a tudo. Tudo ganha sentido se estás por perto. E por isso te comemoramos em encontros, jornadas, palestras e feiras, espalhando o teu nome por todo o lado... Trabalho... à chegada, todos trazemos um brilho no olhar – evidências de um sonho partilhado.
Tentamos perceber a tua complexidade com palavras, mas de modo algum se mostra tarefa simples: tu tens tantos significados e és tão complexo. E por isso cada um tenta falar de ti à sua maneira, juntando peças para construir as imagens das tuas faces tão diversas. Investigamos os objetos que fizemos contigo, as fotos dos espaços onde a nossa produção ocorreu, e fechamos os olhos, tentando reviver os cheiros, os sons e os gestos coreografados que se tornaram naturais aos nossos corpos. Tentamos desocultar-te, mas esta arqueologia é uma tentativa vã, porque tu és esquivo como as camadas de uma pintura são enganadoras, ocultando a energia e o tempo sob a superfície da imagem.
Estamos tão ligados a ti Trabalho. Completamente à tua mercê. Mas tu já sabes disso. Dá-te gozo ser esquivo – e talvez até maldoso! Contas-nos dos planos para nos tratar mais dignamente mas, imediatamente, ressalvas que a qualquer altura te podes ir e que o que importa, é o aqui e o agora... Ainda assim, mesmo com essas tuas promessas vagas, quando te ouvimos o nosso coração salta, hiperventila, cada vez mais confuso: saltará por te saber sincero ou impostor.
O pavor apodera-se de nós quando perdes o teu vigor (ou nós perdemos o nosso vigor). O encantamento quebra-se: será que te perdemos para sempre? Mas depois tu apareces como se nada fosse, com uma nova vitalidade. Mas como te condenar? Somos tão carentes! O que queremos é que nos encantes e seduzas novamente, que nos coloques de novo dentro da paisagem da produção. Tu que aceitas tão prontamente a nossa exasperada querença. Que importa se nos apartas? Que importa se adocicas a nossa natureza explosiva? Que importa que os nossos desejos ardam com o teu embalo?
Nós não pediremos desculpas. Ninguém nunca pediu desculpas por amar e nós amamos-te Trabalho (mesmo que sejas cruel). Nós precisamos de ti; não morras nunca Trabalho. Poder dizer que estamos contigo é tudo o que pedimos.

O papel da fábrica

O papel da indústria, enquanto atividade económica, é o de transformar matéria-prima em produtos comercializáveis. Para isso, a indústria recorre à força humana, à maquinaria e à energia. Há quem argumente, de um ponto de vista antropológico, que os lugares da fábrica são cenários onde a predisposição violenta do humano é destilada, convertida em energia produtiva. Segundo essa leitura, a fábrica é um cenário que concretiza, ao mesmo tempo, o feito de lucrar e de disciplinar.
Eu cresci dentro de um desses cenários, numa fábrica onde milhões de milhões de imagens foram humedecidas e maceradas até se tornarem numa pasta mole, cinzenta e indistinta. Todas as imagens se desgastam no tempo; o papel dessa fábrica de reciclagem de papel parecia apenas acelerar um processo natural às imagens: o esquecimento.
Encontrar carcaças industriais na paisagem tem os dias contados. E os espaços negativos revelados pela remoção da maquinaria - que muito fazem lembrar álbuns de fotografia descartada e nos fazem imaginar o que por lá se passou – também desaparecerão. Enquanto isso não acontece, percorro cenários industriais abandonados ao encontro de evidências materiais e miragens da atividade passada. Mas as minhas interrogações voltam-se para o presente: como se fará o estudo sobre o trabalho dos dias de hoje? Trabalho que é cada vez menos físico, que se desloca freneticamente, como o vento.
Iremos talvez assistir ao espetacular aparecimento, e generalização, de uma nova ciência sobre o trabalho. Uma espécie de psicanálise do trabalho, que estuda as nossas mentes como um cenário que é ao mesmo tempo matéria-prima, lugar e destino da produção. Dessas novas expedições ao lugar da mente irão resultar novos tipos de imagem. Essas imagens serão capazes de ir muito além da superficialidade fotográfica - quem sabe até - conseguindo captar outros sentidos, as sensações de ritmo, de duração e a memória de todos os passos ocorridos ao longo de uma vivência. Já não serão imagens-miragem, serão espelhos.
Deambulo pelo cenário de uma fábrica de calçado abandonada que fora muito ativa durante a minha infância. A sua forma de operar antevia o tipo de produção de hoje, em que tudo se move, tudo se desloca, em que o fixo dá vez ao fluxo.
Sacos de solas e sapatos de couro eram distribuídos matinalmente pelas aldeias ao redor da fábrica. Por diferentes casas, grupos de pessoas munidas de dedais e fio grosso faziam contas à vida com o contar de pares cozidos à mão. A cena engrossava ao longo do dia, com o regresso das crianças da escola e dos assalariados de outros postos. Eram retratos de família produzidos pelo contrarrelógio da recolha dos sapatos com o cair da noite.
Estórias como esta querem desentranhar-se da carcaça da fábrica. Querem brotar das paredes para relatar a minúcia dos dedos precisos, insistentes, vigorosos, e a sua delicadeza, estilhaçada progressivamente pelo calejamento diário. Elas tornam-se realidade sob a forma de estalactites que encontro ao descer ao piso inferior.
Assim que os portões e teto metálico da fábrica foram removidos para venda, a chuva fez-se convidada. Com cada gota, a parede caiada foi-se estendendo até ao chão e atravessou o concreto, formando sedimentos de tinta que testemunham o tempo sem relógio. À primeira vista, não se distinguem estas estalactites das minerais. Mas basta tocar-lhes para se perceber a diferença. Elas não resistem ao toque, pulverizam-se. E são leves, muito leves, como camadas de pele que não engrossam por estarem sempre em ferida. Nelas, está toda a memória do que não se vê quando se veem imagens do trabalho.